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Marisa

A Marisa concluiu o seu doutoramento em Antropologia no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa com a tese: Macau Sá Filo: Memória, Identidade e Ambivalente na Comunidade Euroasiática Macaense, o qual foi Aprovado com Distinção nas provas públicas de defesa da tese em 29 de Julho de 2013.

Ela chegou ao nosso PCB em Setembro de 2010, no dia da Festa da Lua, e de forma discreta mas expedita, com a ajuda dos macaenses a residir em Portugal, lá começou a dar os primeiros passos nesta grande aventura que seria a de nos conhecer tão bem e a ser tão bem aceite por todos, que passaria a ser integrar o grupo e a ser como uma de nós. Foi mesmo isso que aconteceu, esses laços criaram-se e tornaram-se tão fortes que ultrapassaram o período da sua pesquisa e da escrita da sua tese e até da conclusão do seu doutoramento. Depois de observar, conversar, comer, cantar e dançar – em Lisboa e em Macau – depois de escrever sobre nós, a nossa história e origens, as nossas genealogias familiares e antepassados; e como na atualidade, nós nos sentimos quem somos e porque somos assim, a nossa maneira de sermos e de estarmos em comunidade seja cá, seja em Macau, seja no resto do mundo onde há macaenses que diariamente através das redes sociais, comunicam, estão “juntos” e entre si, recordam outros tempos num outro Macau e mantêm viva esta nossa comunidade. E claro, como não podia deixar de ser, a nossa perdição por comer, sobretudo a nossa ui di sabrosa comida macaense e como a ela é tão, mas tão importante, que nos define como macaenses. Agora a Marisa é simplesmente presença “obrigatória” nas nossas festas e outros convívios. Ela continua curiosa e a fazer muitas perguntas, mas já ninguém nota, aliás, só notamos se por acaso ela lá não estiver. A Marisa diz que o nosso PCB e as nossas comezainas a inspiraram tanto, que agora só quer saber é de investigar, estudar e de escrever sobre comida e, por exemplo, a grande importância desta para a nossa identidade étnica e cultural macaense, de tal modo, que foi reconhecida como Património Cultural Imaterial de Macau em 2012 e um dia, quem sabe, a nossa centenária gastronomia macaense poderá mesmo chegar a ser Património da Humanidade. Nós cá estamos para a continuarmos a apoiar nestes seus projetos futuros, especialmente no que dar-lhe comida para o estômago e para a alma diz respeito!


O PCB deseja à Marisa os maiores sucessos e presta-lhe esta homenagem que é no fundo uma homenagem a todos nós macaenses pelo trabalho científico e rigoroso que ela elaborou e que em breve sairá em livro, para que chegue a toda a gente e que o mundo inteiro saiba da nossa existência ou nos fique a conhecer melhor.

A Cerimónia de Entrega das Insígnias aos Novos Doutores do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa no dia 15 de Dezembro de 2014. A nossa Marisa é das mais novinhas de todos, grande orgulho e muitos parabéns, Marisa.

V I D E O "

Macau 1970 - A cidade flutuante


Quando cheguei a Macau foi na madrugada (00H30M) do dia 23 de Julho de 1970, a bordo do ferry-boat "SSMacau" que atracou no porto exterior.

Era de noite o que não deu para ver com detalhe o que havia à minha volta nas margens do Rio das Pérolas. Foi portanto de dia, num outro momento que observei todo o bulício de grandes e pequenos barcos, todos muito juntinhos, desde a margem até ao meio do Rio das Pérolas, enfim uma cidade dentro de outra cidade ali junto do Porto Interior!
Viviam aí muitos milhares de chineses e que raramente vinham a terra, muitos só o faziam em tempo de tufão. As pessoas que lá viviam avançavam de barco para barco como nós passeamos nas ruas. Os barcos pequenos chamam-se "sampan" (palavra inglesa) também chamados barcos de "três tábuas", onde se abrigam famílias inteiras e estão presos com varas de bambu enterradas na lama do rio para evitar que os ventos do tufão os afundem. Mas quando os ventos eram muitíssimo fortes muitos desses pequenos barcos eram colocados no passeio ao longo da Rua das Lorchas. No meio do rio estavam os de maior envergadura, chamados juncos, são os que vão à pesca e abastecem de pescado toda a cidade de Macau.

Ouvi muitas vezes relatos que nos sampan se amontoavam adultos e crianças quase uns por cima dos outros e que nos juncos embora fossem barcos de pesca, eram igualmente as casas dos seus proprietários que tinham outro poder económico. O que acontecia ali naquela comunidade fluvial piscatória era exactamente igual ao que sucedia com a população urbana de Macau, uns (poucos) viviam melhor que (muitos) outros!
Quase todos os barcos navegavam à vela. Velas de panos remendados, de cor predominante acastanhada e até pretas. Mas vi bastantes saindo ou entrando no porto interior, de velas desfraldadas que pareciam leques gigantes. "Co assi bom cara Macau"        Texto e foto: Manuel Camejo Almeida

Nicolau Xavier - como caí nos Açores - Parte 2

COMO “CAÍ” NOS AÇORES ... (parte II)
Pouco antes do fim da Instrução Especial, aos cadetes foi entregue um documento para declararmos três locais para onde desejávamos ser destacados, após a formação. Como tinha a minha irmã Anabela a estudar na capital, optei primeiro por Lisboa e, a seguir, Açores e Madeira, arquipélagos que até então não conhecia.
Durante as férias, recebo a informação de que tinha sido destacado para Ponta Delgada, S.Miguel, Açores, juntamente com vários camaradas madeirenses e açorianos. Soube mais tarde que o conterrâneo Henrique Nolasco da Silva (“Ricky”) tinha sido mobilizado para Moçambique. De simples cadetes, fomos promovidos a Aspirantes a Oficial Miliciano.

Tratadas as formalidades relativas à viagem, parti com eles ainda no verão de 1968 do Cais de Óbidos para Ponta Delgada no navio “Funchal” que era na altura uma das jóias da CNN (não a cadeia americana de televisão mas sim a nossa Companhia Nacional de Navegação), juntamente com o “Vera Cruz” e o célebre “Santa Maria” que já faz parte da nossa História, por razões de todos conhecidas.
A viagem durou apenas três dias e decorreu sem incidentes. De dia, via-se quão imenso era o Oceano Atlântico, com as suas águas de um azul carregado tal a sua profundeza, contrastando um céu azul normal. À noite, a paisagem era outra: um mar escuro e cintilante devido ao luar e um céu estrelado onde imperava a lua. O navio fez escala na cidade do Funchal que visitámos durante algumas horas. Deixou entretanto em terra os poucos camaradas destacados para a Madeira e rumou com os restantes novamente a bordo para o seu destino final.
Já com S. Miguel à vista, os meus amigos açorianos disputavam entre si o lugar na apresentação da ilha, informando-me os nomes das terras que se iam perfilando diante dos nossos olhos. Éramos cada vez menos em número mas conhecíamo-nos já bastante melhor e mais de perto. A amizade criada dos tempos de Mafra ia-se cimentando a pouco e pouco, perdurando até aos dias de hoje, passados que foram mais de quarenta e cinco anos.
Tenho ainda bem presente a imagem de Ponta Delgada, vista do navio atracado no porto no dia da chegada. Não sentia nenhuma pressa em desembarcar por saber que não tinha ninguém à minha espera nem ainda casa para onde ir, situação que contrastava com a dos meus camaradas que ali tinham na sua maioria as suas famílias e residências. Pachorrento, acabei por me pôr em terra firme e seguir para uma nova etapa da minha vida.
Na manhã seguinte, apresentámo-nos todos no Batalhão Independente no. 18 (BI 18), situado nos Arrifes, numa colina por cima da cidade de Ponta Delgada, quando vista do seu porto.
Os primeiros dias foram consumidos com a instalação num apartamento que passou a ser a minha casa durante toda a estadia nos Açores. Estava bem localizada, pois situava-se perto da Baixa e pouco distava do BI 18. O transporte diário facultativo era assegurado de manhã por uma viatura militar que, seguindo um determinado itinerário e com várias paragens, ia recolhendo os oficiais pelo caminho até ao quartel. Ao fim da tarde, a viatura fazia o trajecto inverso. Este processo funcionou impecavelmente, sem prejuízo de casos pontuais em que nos deslocávamos em viaturas particulares ou muito raramente em transportes públicos.
A princípio, quando aparecia na cidade fardado, sentia que era alvo de olhares estranhos e curiosos. Afinal, que raio de homem é esse? O que anda a fazer por aqui? Para os residentes locais, eu devia ser uma “avis rara”, envergando ainda por cima a farda do Exército Português. Essa simples visão devia causar alguma confusão nas suas cabeças. Com ajuda amiga, compreendi mais tarde a razão dessa atitude: os açorianos não estavam então (em 1968) tão habituados a encontrar-se com indivíduos, de feições orientais. E achavam piada...

Nicolau Xavier - como caí nos Açores - parte 3

(cont. parte III)
Os primeiros tempos foram vividos muito tranquilamente. Fui-me habituando à vida no quartel e na cidade, procurando conhecê-los o melhor e o mais ràpidamente possível. Aproveitava os fins de semana para visitar os monumentos e locais de interesse, tentando também descobrir o que de bom havia na culinária açoriana e micaelense. Abundava a lagosta que era boa e barata, o polvo e os mariscos eram muito apreciados e a carne era saudável e saborosa porque as vacas pastavam dia e noite nos verdes campos, alimentando-se só de erva e nunca regressando aos estábulos. Passavam a noite ao relento. Não é sem razão que a ilha de S. Miguel é tida como a Ilha Verde – ela encontra-se vestida de verde à roda do ano devido à sua abundante vegetação e humidade. O ananás, produzido em estufas e em larga escala, eram considerados os melhores do mundo, sendo exportadas inclusivamente para os EUA onde viviam grandes comunidades de açorianos. Os produtos lacticínios possuiam boa qualidade.

Devido à localização do arquipélago, as condições meteorológicas alteravam-se fàcilmente em pouco tempo. Costumava-se dizer que num dia se reproduziam as quatro estações do ano. Embora a situação fosse volátil, contudo havia um certo exagero nessa afimação. A humidade que atingia elevados níveis no inverno, principalmente nas zonas altas e desabrigadas, limitava a visibilidade a escassos metros. Não posso deixar de me referir aos abalos sísmicos. Embora cedo tivesse sido alertado para esse fenómeno frequente, em toda a minha estadia senti apenas dois ou três pequenos abalos de curtissima duração, talvez por ter pouca sensibilidade para este tipo de trepidações.

Juntamente com outros Aspirantes, fui destacado para a Companhia de Instrução que se dedicava à formação dos novos recrutas que em grande número participavam anualmente em vários turnos. A cada um de nós era confiado um pelotão, constituído habitualmente por cerca de 30 soldados. Cada um era coadjuvado por dois sargentos/ furriéis.

Mais do que nunca, tínhamos consciência das nossas responsabilidades na formação desses homens, pois o País enfrentava na altura a Guerra Colonial em certas províncias ultramarinas. Depois da formação, os soldados eram agrupados em Companhias, seguindo para Lisboa e depois directamente para o Ultramar e zonas de combate. Queríamos que fossem preparados da melhor maneira possível, pois dessa formação podia depender a sua vida ou morte.

Não é fácil treinar um recruta, especialmente quando ele vem dum meio rural, o que acontecia com grande frequência. Quem sempre viveu da agricultura ou da pastorícia nas inúmeras freguesias dos Açores e de repente se vê na cidade que não conhece e ainda num meio completamente diferente como seja o de um quartel sente dificuldades em se adaptar ao novo ambiente, tornando-se complicado nos primeiros tempos entregar-lhe uma arma de fogo (de guerra) em vez de uma enxada. Não sabe o que fazer. Fica muitas vezes nervoso e reage mal e ainda de modo imprevisível. E, mesmo depois de algum tempo, às vezes cria situações de perigo … principalmente quando essa arma está carregada com munição na câmara e pronta para disparar na carreira de tiro onde a maior parte dos acidentes infelizmente têm lugar. Sei do que estou a falar, pois, dentre as muitas funções que desempenhei no BI 18, fui Oficial de Tiro, responsável pela dita carreira e por tudo quanto lá passasse. De bom e de mal. Quando se juntam espingardas, pistolas, metralhadoras, morteiros, granadas de mão, lança-granadas (bazookas), lança-chamas, etc... com munições e pessoas, todo o cuidado era pouco. Uma falha, um descuido, uma desatenção podia fàcilmente provocar baixas, entre mortos e feridos. Sem contemplações. Cabia principalmente ao Oficial de Tiro garantir a máxima segurança em todo o treino desse pessoal. Tive como auxiliares dois jovens furriéis açorianos: o Tavares que era exímio em tiros de rajada com a espingarda automática G-3 e o Baptista que tinha uma pontaria tão certeira que fàcilmente abatia com a sua Mauser um milhafre em pleno vôo. No Batalhão, não conheci melhores atiradores.

Não me esqueço dos inúmeros exercícios finais no Rego de Água, na zona central da ilha, que percorremos de lés a lés, bem como a inevitável hora das despedidas no fim de cada turno de instrução.

Entretanto, o tempo foi passando. Dia veio em que fui promovido a Alferes Miliciano, como os outros camaradas do meu Curso. Além do almoço oferecido na Messe de Oficiais no Quartel, realizámos na cidade um bom jantar. Ambos decorreram em ambiente muito agradável e de sâ camaradagem. Viviam-se então outros tempos.

Tive a oportunidade de visitar algumas das nove ilhas que constituem o arquipélago dos Açores. Como o arquipélago era de origem vulcânica, as rochas e areias eram dum castanho escuro, pelo que a paisagem assumia bàsicamente tons escuros, à semelhança do que acontecia nas ilhas Hawai no Pacífico. Chamaram particular atenção a Terceira e a Base Aérea Americana onde a azáfama era então enorme com vôos contínuos de aviões que, tanto quanto se sabia, provinham dos EUA, escalavam a Base e seguiam para a Alemanha Ocidental (a Oriental ainda existia) e depois para o Vietnam onde os americanos faziam a sua guerra. Enquanto uns vinham, outros partiam em sentido contrário. Faziam-se ali boas compras. O Faial, com os Capelinhos e o porto/marina, merece também menção especial.

Nicolau Xavier - como caí nos Açores - Parte 4

(cont. parte IV)
No verão de 1969, a Companhia onde estava integrado deslocou-se cedo numa manhã numa unidade da Marinha Portuguesa para Angra do Heroísmo a fim de, em representação do BI 18, participar nas celebrações do 10 de Junho, celebrações essas que culminaram com um grande desfile pela avenida principal da cidade. Findas as cerimónias, regressámos ao entardecer a Ponta Delgada. Uma correria louca.

Quando cheguei um dia à minha casa, o proprietário disse-me que tinha vindo à minha procura um indivíduo que se tinha apresentado como “um amigo de Macau”. Intrigado, passei a noite a adivinhar quem terá sido o outro “maluco” caído também em S. Miguel. Algum turista de passagem? Estudante em Lisboa? A resposta tive-a na manhã seguinte no Quartel quando apareceu à minha frente nada mais nada menos do que o João Magalhães (“Pom-Pom”), todo ele fardado. Caiu-me o queixo, pois não o via há séculos! E perdi a fala por alguns momentos. Como assim? Depois dos abraços iniciais, conversámos, conversámos … e não parámos de conversar durante todo o tempo em que permaneceu na ilha e que não foi muito. Disse-me então que tinha estado em Lamego numa formação de Operações Especiais e vinha treinar e fazer parte duma Companhia com destino para a Guiné. Ele foi o segundo macaense que encontrei na tropa. Lembro-me tão bem dos jogos de ping-pong que realizámos no Quartel, também com a participação de outros oficiais, dos jantares na cidade e posteriores passeios realizados no verão na Avenida Marginal de Ponta Delgada.

Passado algum tempo, o “Pom-Pom” foi-se embora mais a Companhia da qual fazia parte. Será que não há mesmo dois macaenses sem três? Dois macaenses, já eu vi (o “Ricky” e o “Pom Pom”); chegará ainda um terceiro?

Alguém lá do alto deve ter lido o meu pensamento. Decorrido algum tempo depois da partida do “Pom-Pom”, aparece um dia especado à minha frente no Quartel o Dr. Jorge Rangel (“Jimmy”), também todo ele fardado. Fartámo-nos de rir nessa ocasião. Como era possível? Não dava para acreditar! A surpresa não foi tanto dele porque sabia, provàvelmente através da Anabela ou do Alfredo, que eu andava por aquelas bandas. Era eu que estava surpreendido, pois a sua aparição tinha sido súbita. Disse-me na altura que, depois dos estudos universitários em Lisboa, tinha concluído o CPC (Curso de Promoção a Capitão) e que estava em S. Miguel para formar e levar uma Companhia, sob seu próprio comando, para a Guiné. Poucos meses depois, também ele partiu, acompanhado dos seus homens, deixando-me novamente como o único macaense no Batalhão.

Resumindo: Três oficiais macaenses prestaram serviço juntos no BI 18 num determinado momento. O “Pom -Pom” e o “Jimmy” levaram para a Guiné soldados açorianos formados no mesmo Batalhão onde durante cerca de três anos o autor destas linhas foi instrutor e Oficial de Tiro, para além de outras funções cometidas.

A minha “comissão de serviço” foi toda ela feita nos Açores. Dos quatro macaenses referidos neste artigo, três estiveram em zonas de combate. Fui a única excepção porque por algum motivo se entendeu que devia ficar para trás para instruir recrutas até ao dia da minha passagem à disponibilidade no verão de 1971 com o meu regresso definitivo para Macau para reassumir as funções públicas que tinha interrompido devido ao serviço militar que na altura era obrigatório.

Foi assim que um dia “caí” nos Açores.

NOTAS FINAIS

Na minha curta passagem pelo arquipélago, situado no meio do imenso Oceano Atlântico entre a Europa e o Continente Americano, guardo das suas terras e das suas gentes as mais gratas recordações. Foram tempos intensamente vividos entre gente simples, honesta, laboriosa e amiga.


Ao longo dos anos, revisitei várias vezes S. Miguel, umas vezes sozinho devido a afazeres profissionais, outras vezes com a família em férias. Numa das visitas, quis mostrar à minha mulher o Museu Machado de Castro em Ponta Delgada. Íamos a conversar descontraidamente quando se abeirou de mim um indivíduo que, apresentando-se como funcionário do Museu, disse que, salvo erro, tinha ouvido algumas palavras ditas em português. Perguntou-me se era de Macau e se conhecia o Alferes Xavier. Respondi que ele estava efectivamente a falar com o (então) Alferes Xavier. Ficou muito contente, adiantando com certo orgulho que tinha sido meu recruta antes de ir para a Guiné e ainda que iria transmitir o nosso encontro aos seus companheiros de então. Pelos vistos, esse recruta/soldado não se esqueceu de mim, passados esses anos todos.
 

Qui sábi si bom ri, si bom chôra - 1ª parte

Tanto genti di terra-China tudo dia, tudo óra vem Macau. Macau assí pichóte, terra-piquinino qui na máis, quelêmodo pódi bóta tanto genti qui tâ vem visitâ cô fazê cómpra. Quelóra sol nunca subi riva di céo tanto gente tâ ispéra pássa “porta-cerco” pâ vem-ia. Na ládo di China na acunga práca diánti di nôsso porta-cerco, prâmicedo tanto genti fazê fila tâ ispéra vem-ia. Na nôsso lado, tamém tanto genti vai terra-China. Sete óra abri porta-cerco tudo cachipiado di genti qui ta vâi comprá “sông” cô “iam-chá”. Fála qui nacunga lado di China tudo ancuza máis barato. Intrementes divéra tem tanto genti qui tâ fica na terra-China. Si vida sã máis barato iou nancassã sábi si sã nunca. Certo, na Macau tudo ancuza cáro di morrê. Vida caro qui fálta unchino nádi pódi vivo na istunga terra. Genti di fóra qui ta visita sã lôgo pensa qui tudo genti qui tâ vivo na Macau divéra vida filiz. Sápeca qui intra na tudo casino-casino pódi afuga tudo genti. Governo qui di sabroso recebê tudo taxa-taxa qui ilôtro tem qui pága. Sapéca qui ta inchido na cofre di governo sâ tanto, qui nancassã sábi quelêmodo gásta. Contrário di colónia vizinho qui fála nancassã tem sapéca, tudo óra cô tudo dia, tem gente sâi vâi rua goéla, fazê um cento di fita rámenda entrudo na tempo di carnaval. Tudo qui chapa juntado sã goéla qui nancassã tem fim. Gritaria pâ tudo vánda. Fazê boboriça qui nôm tem fim., Medo genti cunhêce, pâ caba nádi fica cholido, sã bóta dominó iscondê cára. Divéra chisti. Quêre fazê, querê medo. Na mês passado jâ acontece unga céna na istunga colónia vizinho qui fazê tanto genti réva cô  ri cacada di morrê cô istripâ. Vosôtro fála si nunca sã galánti. Tudo dia tanto genti léva cachoro vâi rua sissíca cô fazê cócó nunca sã tem genti tira foto bóta na “internet” pa tudo genti pódi óla. Quelóra anôte iscuro, nunca óla benfêto unde chuchu pé, sã lôgo fica lamiado di cáca di cachoro. Lôgo dâ cô quanto ásnera pâ quim jâ fazê seléa ancuza mâs nádi fazê nada. Sómente azinha limpa sapato pâ nádi léva cáca vâi casa na máis. Sã nádi bóta foto na istunga istória qui intrementes uidi  moda bóta. Comê ancuza tamém tirâ unga foto pâ bóta. Compra ancuza tamém bóta. Tudo ancuza bóta. Qui chisti. Qui sábi unga dia si sentado na cácuz lôgo tira unga foto bóta nunca. Qui sábi si jâ tem genti jâ bóta sômente nosôtro nuncassã óla benfêto. Déssa vai-ia. Sâ móda fazê istunga ancuza. Genti antigo chôma tudo istunga genti “chuchuméca”. Intrementes cô istunga istória di bóta cô fála tudo ancuza na internet chuchuméca tamém jâ virâ fica genti qui sábi tanto istória qui tâ querê fála tanto ancuza para tudo genti sábi cuza ta sucedê na istunga mundo fóra. Divéra chisti. Chuchuméca virâ fica tiro-grandi “VIP” qui sábi tudo ancuza. Bom nádi fála di istunga ancuza-ia. Déssa cába fála istunga istória qui jâ acuntece na istunga antigo colónia vizinho.

Qui sábi si bom ri, si bom chôra - 2ª parte

Tem unga “family” china, pápi, mámi cô unga filo pêdo-di-adám jâ vâi Hongkong fazê shopping-shopping. Qui sábi si sâ cumpra lête “or” cumprâ ancuza pâ bánha cô iscôva dente, pâ nunca si fála cifra-dente. Cumprâ qui cuza tamém bom-ia. Pramicêdo tâ chéga na Hongkong medo fica na fila ispéra quanto óra pâ pódi intra. Ispéra di istunga manéra, quim nancassã lôgo fica perna azêdo cô dói patinga? Cáva intra sã nádi pára di váre-rua. Vâi pánha “metro” tamém nancassã tem pâ senta. Tudo vánda cachipiado di genti qui nom tem fim. Intrâ sâi di tudo laia-laia di lója pâ rábia ancuza qui pódi achâ pâ cumprâ pâ léva vâi su casa na terra-china. Puxa acunga qui sábi si sã mala ô sã qui cuza pâ bóta dentro tudo ancuza qui cumprâ, corrê pâ tudo vánda rámenda galinha-dôda. Quim nádi fica pérna-azêdo? Superman cô wonder-woman tamém lôgo puxa bafado. Nunca bom fála quiânça-ia. Nunca bom fála tem fómi cô sêde-ia. Certo tem qui fazê sissíca cô cócó. Unde tem tanto WC pa tudo istunga genti vâi? Certo quiânça sã nádi ispéra. Gente criscido sã pódi aguénta unchinho ispéra rónça pâ tudo vánda pâ incontrâ unga “Public WC”. Na Macau tamém tâ acuntecê istunga istória. Querê sábi bênfeto sá vai acunga cása-di-banho na lado di corrêo pódi entendê-ia. Fazê fila pâ sissica cô cága. Tem gente qui nunca pódi aguenta sá tem qui côi-côi na unga canto di porta pâ fazê-ia. Qui susto. Si mal di barriga unga cifrada lôgo sai como águ di fonti di práça di Senado. Aia, vosôtro disculpa, sinti qui jâ fica unchinho máligu fáli di istunga manéra. Si sâ verdadi cuza málingu nádi fála? Verdádi certo sá tem qui cónta. Tudo dia, tudo óra céna qui tâ pássa na tudo rua-rua di Macau cô colónia vizinho, si cónta vosôtro nádi acredita. Máis bom quelóra vosôtro tem tempo oncôm vem cô vâi rábia bênfeto. Ancuza qui iou ta iscrevê nunca sã pantominice, sá tudo verdádi qui tâ acuntêce. Bom, tórna tâ “pull” unchinho cumprido istunga istória qui tâ querê conta. Acunga quiança jâ sinti vóntadi fazê sissica certo tem qui fazê. Mámi azinha côi-côi ele, na rua di Hongkong, bóta unga fralda pâ nádi mulha rua, déssa quiânça sissica. Tem gente mapeçoso qui tâ pássa perto, jâ rábia pâ cuza tâ sucedê. Unga cifrada péga na oncôm sã “cell-phone” azinha “click” jâ tira foto di quiâncã sissica na rua. Cába péga na su cell-phone azinha fazê “magic” na foto qui jâ tirâ pâ nunca si pódi óla fralda, rámenda quiança tâ fazê sissica mulhâ rua di Hongkong. Pâ préga mápeça azinha bóta na “internet” pâ tudo genti pódi óla. Divéra mápeçoso. Sómente pâ dámostra qui tudo genti di terra-china nunca tem manéra, nunca sã sábi pórta. Tem genti qui sã assí. Sã verdadi qui tem. Mâs tamém tem genti qui sábi manéra cô tem educaçám. Tem tanto qui sábi pórta máis benfêto qui tanto genti di oncôm sâ terra. Nuncassã? Na tudo naçám tamém tem tudo laia-laia di istunga genti. Fála verdadi, nancassã sômente genti di térra-china qui sã assí. Bom, cába istunga foto sâi na internet, genti di terra-china qui jâ rábia pâ istunga istória nuncassã gósta. Unga cifrada, cápi-cápi ôlo senti sángui subi riva di cabéca, geniado rámenda liám di tudo fita di MGM abri bóca rugí di furia. Azinha bóta na “page di internet” chôma tudo “comrade” na dia um dia Maio, dia di tudo “worker” di mundo, vâi antigo colónia vizinho, tudo juntado sissíca cô cága na tudo rua cô vánda di istunga colónia. Genti di acunga colónia susto qui na máis. Câi pé-mám qui sábi cuza lôgo fazê si verdadi lôgo sucedê istunga istória. Vosôtro pódi “imagine” quelêmodo lôgo fica acunga city qui tudo óra “claim to be” janóta rámena unga “shiny-pearl” qui fica na cu-di-judas di istunga vánda qui chôma “pearl-delta river”? Fedôr di chêro di “Soir di Paris” qui lôgo lévanta, lôgo fazê tudo genti istôntea, vángueâ, cabéça ficâ vantu, si nunca câi morto. Sômente pénsa nacungâ fedôr tâ querê vumitâ-ia. Querê bulí cô jambo sã logo lévanta fedôr. Divéra susto. Máis bom sã sossêga nádi bulí cô jambo. Sorti pâ antigo colónia vizinho seléa istória nancassã sucêde. Qui rámede. Aia, sossêga-ia! No mêste vâi antigo colónia vizinho. Na Macau, na vanda di san-má-lou, tamém sá pódi bispâ pâ istunga boboriça di ancuza. Tudo óra nôm tem fim di cachipiado di genti. Somente nuncassã sábi cuza lôgo sucede si unga dia acuntecê “chop-chop” como na tanto istaçám di comboio di terra-china. Cô tanto genti cachipiado, chipido qui na máis na rua, querê azinha bóta fugí tamém nancassã pódi. Sã lôgo ficâ “chop-chop” rámenda bife-pó-bolacho. Iou sã nádi vâi várre-rua na istunga vánda di san-má-lou. Sómente óla tâ subi pressãm azinha lôgo pánha “stroke” cáva fica bóca-torto cô pé-mám cáng-cáng, rámenda genti antigo fála jâ ficâ savanado cô pánha vento-sujô. Vosôtro fála nancassã? Istunga istória di pánha sávan, divéra chisti cô gálanti. Na tempo antigo, quelóra tánto família máquista na vanda trás di quintal tem unga curúm pâ criâ galo, cápam, galinha, cô tudo laia-laia di pastro-pastro, si rábia tem unga pastro murúm-múrum azinha lôgo máta pâ côme, pâ nádi pánha sávan. Intrementes tudo “doctor-doctor” fála sâ “bird-flu”, nancassã sã sávan. Aia, vai-na! Istunga istória boboriça qui na máis. Quelêmodo pastro-pastro pódi pánha “flu”. Ilôtro tem tanto pena na corpo pâ nádi tem frio. Intrementes tem tanto genti quelóra tempo frio na inverno sã tamém lôgo bóta casaco cô pêlo-pêlo rámenda avestruz, pâ nunca tem friu, quelêmodo pódi bird pánha “flu”? Trávessa porta-cerco, vai vizinho terra-china sã tem tanto pâ cumprâ. Baráto cô bunito qui na máis. Tudo cor qui querê tamém tem. Divéra galánti istunga inventaçám fála tudo “bird” cô “birdy” ficâ cô gripi. “Temperature” na mundo azinha tâ subi, unga ano máis quente qui ôtro, unde tem tanto frio pâ pánha? Na ano novo china di istunga ano qui jâ pássa, tempo quente qui na máis. “Temperature” jâ subi pâ “26 degree celcius” quelêmodo pódi pánha friu? Qui sábi acunga qui jâ inventâ istunga istória, oncôm sâ birdy câi tudo pêlo jâ pánha friu, tudo óra achiu-achiu na máis. Aia, vosôtro discupâ pâ iou. Já tórna iscrevê boboriça pâ vosôtro ri unchinho. Déssa vai-ia, vida sã assí-ia. Qui cuza lôgo pódi fazê? Sénta churâ? Carnaval tudo dia tâ tem na rua. Puxâ “mala-troley”, subi rivâ, vâi gudám di “avenida ribéro”. Na frente di farmácia na vanda di Leal Senado, tanto genti chipido cachipiado qui nôm tem fim. Si nancassã sentado na chãm, sã lôgo fica côi-côi di rua, abri mala bóta dentro tudo laia-laia qui tâ cumprâ. Saco-saco cô cáxa-cáxa vazio sã déta fóra na rua ispéra genti pánha vâi vendê gánha unchinho sapéca. Nancassã bom fála sã tem qui rámenda circo ánda zig-zag na rua pá nádi chu-chu onçôm cô genti qui pássa. Si nunca cuidado, logo pánha “fleuma” na cara, di gente cuspi cô tudo fórça qui têm. Na vanda di pánha autobus sã óla genti cachipiado cô saco-saco di bulacho-china qui intremente fála sâ  cumizaina di Macau. Quelóra autobus chéga unga chôle pâ ôtro pâ subi riva di “bus”. Quim tâ vivo naquivánda sã tudo dia, tudo óra óla pâ tudo istunga “carnival” qui fazê nosso terra divéra cunhecido na tudo mundo. Di cunhecido qui fica, quim nancassã si cunhêce istunga terra? Verdadi qui sábi si bom ri, si bom chôra?

Autor: Carlos Coelho

Recordã sã vivê

Sâi di casa úndi iou têm vivo ta vâi ólã pa iou sa Tio Luís qui pódi andá somente unchinho assi tánto, já subí di Estrada Adolfo Loureiro, chegá Jardim Vitória, já ólã pa jardim já sentí qui nunca sã igaul, têm unchinho más di ancuza, sã máquina pa gente fazê ginástica, poço di jardim tá fichado ia, falá qui águ non pódi bebê, pódi fazê gente ficá doente, vâi sosegâ nã, iou já bebê qui tánto istunga águ, nunca ficá doente, sã água qui iou ongçong pegá balde co corda qui trazê di poço para riva.
Jardim da Vitória
Na lado de jardim têm ui di tánto lambreta parado, Iscola primária Pedro Nolasco da Silva já ficá Iscola Luís Gonzaga Gomes.
Procissão di Nossa Senhora di Fátima já cáva ia, iou ronçá vâi ronçá vêm ta vâi pa Chéok Châi Ün, chegá Jardim Vasco di Gama já recorda di incêndio da Iscola Choi Kou. Na ano novo china já intrá unga foguete na iscola, lôgo incêndiá di primeiro andar pa riva, fogo chegá teládo e sâi, bombeiro bombeiro nom pódi vêm perto, ui di tánto careta na rua, carro di bombeiro grándi non pódi intrá na vanda di iscóla, lôgo chegá na iscóla non pódi abri porta pa intrá, bombeiro dá um cento de pontapê na porta di madeira di iscola, nádi abri, dále co machado na porta di madeira,  sã más duro qui pedra, sã nádi quebrá.
Jardim Vasco da Gama
Bombeiro subi pa riva co su iscada qui já trazê, mangueira vâi riva, goelá pa baso “abrí águ”, água non vêm, vêm águ non têm força pa intrá casa, vêm carro bomba, águ vêm co força já intrá vâi iscola, tamêm nádi servi, já queimá tudo ia, fogo já sâi na teládo.

Bom, já recorda cuza já sucedê co Iscola Choi Kou, agora istunga iscóla tem unga perto di Rua dos Pescadores e otrunga colado na antigu Hospital S. Rafael, agora Consulado di Portugal.
Na rua rua qui têm Mercado di Chéok Châi Ün tem tánto loja loja, mercearia, café, casa di chá, tenda tenda di comezaina e tudo laia laia.
Já ólã mercearia, casa di chá, tudo tenda tenda di comezaina têm ui di tánto ancuza pindurado, ólã bem fêto, aiá, sã catupá qui têm, ui di tánto catupá, sagado co carne, gema di ôvo sagado co carne,  chai di bonzo, têm grándi grándi qui chomá lau tau chông, dóci di hong tau sá e lock tau sá, azinha já lembrá sã Tün Ng Chit qui já vêm ia.
Catupá

Catupá
Tün Ng Chit sã unga festa qui acontecê na quinto dia di quinto mez di calendário china, istunga dia tamêm sã dia qui têm comemoraçám di grándi poeta china Vât Ün.
Vât Ün nunca sã somente poeta, tamêm sã funcionário di China na tempo antigu, sã quasi tiro grándi na su tempo, quelóra fálá sã grándi homem, honesto gente di bem, bom coraçám, assi tudo gente gostá di istunga siúm.
Fálá qui tudo gente gostá deli, qui cuza já sucedê ta vâi suicidá?, Vât Ün, funcionário honesto nom pódi ólã otro funcionário di su tempo fazê corrupção, réva qui nom pódi más já pula pa mar suicidá lôgo morrê, si intunga siúm têm vivo na tempo moderno di agora pódi suicidá más mil vez sã nádi chegá.
Gente gente lôgo sábi Vât Ün já pula dentro di mar morrê, tudo susto qui pêsse pêsse vâi comê su corpo, já corrê azinha pegá arroz co carne embrulá co fólia de bambú, cozê, levá vâi bote, já remá vâi mar fóra, pinchâ pacote pacote di arroz na mar pa pêsse pêsse comê ia, istunga pacote di arroz agora sã chomá catupá e bote qui usá pa levá pacote di arroz vâi pa mar sã chomá bote di dragão.

Bote di Dragão
Na Macau sã fazê resgate di bote di dragão na istunga dia, na tempo antigu já fazê na Porto Exterior na dianteira di antigu logar di Stand di Grándi Prémio, tempo já vâi, depois já fazê na Praia Grándi, agora têm na lago NanVám.
Atleta atleta di resgate di bote di dragão di Macau nunca sã profissional, sã gente qui trabalá na hotel, banco, funcionário público, tudo laia laia di profissão têm.
Atleta treina quando siviço siviço cavá, tánto vêz rema na Lago Nan Vám anoite, têm treino tudo dia.

(click pa ólã - Vídeo 1 Atleta treinâ)

Foto 1 sã atleta qui voltá de resgate, ta vâi ponte, logar úndi l’ôtro intrá sâi di bote dragão.
Na resgate di istunga quántio dia têm bote di dragão grándi, bote di dragão más pichotito, bote de dragão somente têm siú remá, têm bote di dragão somente siára remá tamêm tem bote di dragão juntado sária co siúm para remá.
Bote Dragão ta chega su ponte
Iou ta vâi ólã bote de dragão, já intrá na bancada, nom têm logar pa sentá, sorte tem gente já dá unga logar pa iou, já ficá perto do grupo MGM (Mei Kou Mui), iou já fazê fotografia, fazê tánto vídeo vídeo, já ólã kuai lou di grupo de MGM tocá tambor de leão ton chán, começá resgate gente gente fazê tánto barulo pa dá força pa su grupo.
Iou nom sábi iou papiá tánto fazê cuza, sã más bom botá unga vídeo pa ólã.


Istuga dia ta chuvê ia, iou co sorte já ficá na bancada co toldo, sã nádi ficá muládo, somente vídeo ficá iscuro qui vêm di tempo.
Na áno 2013, resgate di bote di dragão já fazê quatro dia assi tánto ia, iou somente vâi ólã três dia assi tánto, último dia iou já ficá ólã televisão em casa.
Cuza já sucedê iou nádi botá unga vídeo pa ólã?


Outra vez iou vâi iscrevê na Recorda Sã Vivê festa di NáTchá.


Texto, fotos e vídeos de Filipe Rosário

Rir é o melhor remédio

SOMENTE UMA MÃE SABERIA...

Eu tinha uns dois anos e meio. Alguém me tinha dado um jogo de chá de presente e era um dos meus brinquedos favoritos.

O meu pai estava na sala a ver as notícias na TV, quando eu trouxe para ele uma chávena de chá, que na realidade era apenas água. Após várias chávenas de chá, e eu continuava a receber elogios entusiasmados do meu pai a cada chávena servida, a minha mãe chegou.

Meu pai disse-lhe para se sentar na sala para me ver a trazer a chávena de chá, porque era a coisa mais fofa do mundo! A minha mãe esperou, e então, lá vinha eu pelo corredor com uma chávena de chá para o meu pai. A minha mãe viu-o beber o chá todo.

Então a minha mãe disse ao meu pai (apenas uma mãe saberia):
 - Passou-te pela cabeça que o único lugar onde ela alcança água é na sanita?

Os pais não pensam igual às mães ....

A barraca de banho

Quando eu tinha os meus 12 ou 13 anos, por razões que não interessam agora explicar, tive de viver algum tempo em casa de uma das minhas Tias, que nessa altura, vivia numa das casas antigas pertencentes à Santa Casa da Misericórdia, sita na Travessa com o mesmo nome. Era um pequeno bairro com uma curta ladeira, ladeada de casarios, considerados habitações de classe média, de dois andares, com tectos altos e janelas rasgadas, paredes grossas e portas de madeira, tão grossas que mais pareciam as portas de um mosteiro!
Vivia com a minha irmã menor e andava a estudar no Seminário de S. José.

O Verão, era para nós, um período misto entre a alegria e o tédio... a alegria, como acontece a todos os miúdos da nossa idade, era devido ao facto de, por estarmos de férias, não haver necessidade de ir à Escola... “Não ter de estudar!... que maravilha”. Mas... depois da primeira ou da segunda semana, caiamos no aborrecimento, pois passávamos todos os dias na mesma e sentíamos a falta dos nossos amigos...

Só com a vinda da epóca balnear é que a nossa “sorte” mudava.

Naqueles tempos, eu tinha uma Tia muito simpática e generosa... todos os anos mandava construir uma barraca de bambú na Zona do Porto Exterior, do lado oposto ao Reservatório, num espaço onde o Leal Senado de Macau, anualmente, durante o período das férias do Verão, permitia a construção de uma série de barracas de bambú destinadas aqueles que lá quizessem passar umas horas agradáveis junto do mar. Findo o período das férias as barracas eram desmontadas.


Era uma zona segura, protegida por vários quebra-mares e destinava-se ao abrigo de pequenas embarcações durante a passagem de tufões.


Havia um grande barracão no meio, habitualmente pertencente a uma Associação que fazia a gestão daquele espaço de lazer, e em ambos os lados desse barracão, pessoas particulares mandavam construir a sua própria barraca - mediante o pagamento do respectivo preço - formando as barracas um grande rectângulo, no meio do qual era uma zona aberta onde os utentes podiam nadar.

O barracão “central” dispunha de WCs e pequenos balcões para a venda de comes e bebes: bolos, pão, fruta, min (naqueles tempos, ainda não havia Kong Chai Min – Doll Noodles) e bebidas como café e chá, além de gasosas como a Coca-cola, Green Spot, Seven Up. Porém, para nós, as gasosas mais acessíveis e por conseguinte, mais populares eram as da marca Ásia por serem mais baratinha e haver uma grande variedade. Também havia o delicioso Süt tiu (sorvete), de sabores variados.


As barracas, habitualmente de forma rectangular, tinham tamanhos variados, consoante o seu preço. A nossa tinha um tamanho médio, onde se podia acomodar mais de 12 pessoas. Era constituida por uma sala com janelas, uma casa de banho e varanda... da varanda havia uma rede para pesca e uma pequena escada de onde se descia para ir tomar banho nas águas do mar.


Quando a maré não estava muito favorável, a rapaziada ia para a zona do quebra-mar, mesmo ao lado, para apanhar pequenos caranguejos e colher “ostras” coladas às rochas ou então inventava-se qualquer outra brincadeira...

Esse era o nosso paraíso e todas as semanas, aos Domingos, “rezávamos” para que nos convidassem e estavamos devidamente preparados. Habitualmente iamos num autocarro, que a respectiva Companhia destinava exclusivamente àquela zona.

No mês de Junho calhava o festejo do dia de S. João...

Para não ter de puxar mais à cabecinha, vou aqui reproduzir uma pequena parte – melhorada - de um artigo que subscrevi, há tempos, ao Portal do PCB, a propósito das celebrações do Dia de S. João e o dia da Cidade.

DIA DE S. JOÃO


O Dia de S. João, para mim, quando eu tinha os meus 12 ou 13 anos, era uma data especial! Era o dia em que uma grande parte da família se iria juntar e passar o dia todo nas barracas de banho, no Porto Exterior, onde uma das minhas Tias teve a bela ideia de mandar construir uma, para ser utilizada durante toda a época balnear.


A minha alegria era enorme, pois iria encontrar, não só, todos os meus irmãos, mas também com muitos primos, tios, alguns vindos de Hong Kong, e amigos!

Logo de manhã, os garotos e os jovens já estavam todos a postos, cada um com o seu fardo para carregar: Uns levavam esteiras, toalhas e bóias, outros garrafões de água, sacos de pães e fruta! As tias preparavam a comida para o almoço e o jantar: costeletas panadas (bife pó de bolacho), porco bafassá, capela, costeletas fritas, etc., para o almoço e normalmente era arroz carregado com porco balichão tamarino para o jantar... e muita fruta: uvas, melâncias, bananas e até ananáses mergulhado em vinho tinto!

Nesse dia, o céu apresentava-se habitualmente azul e limpo, com o sol brilhante e mar sereno.

Na “nossa” barraca de banho, enquanto os adultos jogavam mah-jong ou passava o tempo em animada cavaqueira, os pequenos e os não-tão-pequenos punham logo os respectivos calções e fatos de banhos e divirtiam-se, ruidosa e alegremente, na água do mar. Curiosamente, nesse dia, até a água do mar era mais limpa e transparente.

Ao meio-dia era a hora do almoço e havia sempre uma diligente Tia que, mais parecendo o Sargento do Dia, ia “tocar” para o almoço... e todos, sem excepção, acorriam para dentro da barraca, cada um assumindo o seu posto no respectivo “pecking order” para receber o seu almoço... toda a gente faminta!

Seguidamente, era um pequeno intervalo para descansar e fazer digestão... ninguém tocava na água depois do almoço... a garotada toda tinha de tirar uma “siesta” enquanto que os velhos continuavam as suas conversas.

Acordávamos cerca das 15:30 e lá retornávamos as nossas brincadeiras, já que tínhamos as “baterias” recarregadas!

Depois, lá para o fim da tarde, cerca das 18:00 horas, todos os presentes reuniam novamente na sala da barraca para saborear o jantar especial do Dia de S. João, o belo arroz carregado com balechão tamarinho, preparado por verdadeiras mãos de mestre... uma maravilha, como diria o meu cunhado!

Findo o jantar, todos dão uma mãozinha na limpeza e arrumação da barraca. A louça lava-se em casa, uma vez que não havia água canalizada.

Com muita pena, então, chegava a hora da despedida e, no meio de abraços e beijos, todos mostram-se cansados, mas felizes, fazendo votos para que a reunião se repita com maior frequência.
 

Fausto Manhão

Rir é o melhor remédio

Num restaurante chinês nos anos 70: 

Cliente maquista - uhm kói, ngó ói lôu-fu tón, yat tip chám-chám-hah 
 Empregado - uhm chi, môu lôu fu tóng! (não sei, não há caldo de tigre) Chám-chám-hah? Hông-lôk-tan?(pisca-pisca? Semáforo?) 
 O que o Cliente maquista queria era o caldo do DIA (lôu-fó tón) e um prato com carnes assadas e partidas (chá siu, siu iok, etc).

Recordâ sã vivê

       Iou ta vivo na Bairro S. Lázaro casa de avó-mãi, mamá de iou sa pápi, istunga casa têm dôs andar, sã gudám, andar de riva, têm varanda, têm unga grándi quintal na vanda traz, otro quintal na logar úndi têm poço, istunga casa antigu sã ficá na Rua S. Miguel, lado lado de istunga rua têm Calçada da Igreja S. Lázaro, Calçada Central da Igreja S. Lázaro, más têm na riva Rua Sanches Miranda, logo tem básso Rua S. Roque.

       Dessá iou botá foto pa ólâ como têm Rua S. Miguel de hozi qui já virâ bairro histórico.
       Logo têm na su dôs vanda isquerdo co direito Calçada de Igreja S. Lázaro, Calçada Central de Igreja S. Lázaro.

       Na istunga isquina pramicedo tem padéro de Vo Long, velô kong qui cartá co tám cóm dôs armário de vidro, trazê pão co bolo bolo china europeia (sâi péng), na su diantéra vem unga siára vendê chai ü fá sang cheock (canja de peixe seco) co iau chal kuai, istunga siára trazê fogão de carvão co unga panelão de canja, unga armário de vidro com tijela co tudo ancuza pa champurâ co canja.
       Casa antigu úndi iou já ficá quelóra iou quiança já non têm, têm unga casa nova de cor verde, vosôtro pódi bispa na fotografia úndi iou pápia de padéro.
       Na istunga dôs isquína tem siúm de mag ngá tóng, gente qui vendê ancuza frito, tau fu fá.

       Iou já papiá na Magazine de PCB Março 2012, iou ta vâi iscrevê na edição de Junho, qui cuza vendilhão trazê vêm vendê, qui cuza já comprá e cuza fazê.
       Iou cavá mostra unchinho foto, dessá iou contá qui cuza nosotro fazê co pack choi qui comprá na porta de casa.
       Iou sa mãi co quiada logo ólâ vendilhão de bredo logo chegã, azinha goelá forti chomá, pirguntá como vendê pack choi.

       Lôgo sábi quanto custá, lôgo pirguntá têm dôs cesto cheio nádi, comprá tudo más barato nunca, vendilhão, iou sa mãi, quiada, papiá vâi pápia vêm, dôs lado pegá na pa tcheng ta pesa pack choi, pesa tudo cesto, três siára papiá co voz forti, págâ cuza comprá, trazê tudo vêm casa ia.
       Passá unchinho assi tánto tempo, campainha de casa tocá, sã três aporona qui vêm, tudo vêm co cesto cheio de pack choi, cinco siára raganhado, pack choi já intrá casa, vendilhão já cartá cesto co tám cóm pa dentro de casa.
       Pack choi têm qui ficá bem lavado, mamá co quiada já lavá bem feto co balde balde de águ, águ inchido na balde de madeira grándi. Sã têm qui ólâ pack choi si têm bicho nádi, si tem fólia podre nunca, si têm areia nádi. Ólâ tudo bem feto, pegá pack choi gongchong gongchong dentro de balde co água, sacudí co fórça, têm qui lavá três vez, assi tánto ia.
       Logo tem pack choi lavado, mãi pegá panelão botá águ ferver, águ bem fervido, quente qui quente, pack choi lôgo ficá bem iscaldado, dessá corrê tudo águ vâi, botâ varanda fóra pa secá co sol.
       Assi, quiada lavá pack choi, iou sa mamá iscaldá, dôs juntado botá pack choi na varanda secá, iou j’ólâ, iou sa irmão ta durmí.
       Pack choi vâi pramicedo pa varanda, vem quasi noite pa dentro de casa, sã botá na córda e bambú pa pindurá, sã tem qui ficá seco bâsso de sol, três quatro dia assi tánto ia, si chuva ta vêm, azinha recolê, pack choi já seco, já virá choi kóng, seco qui seco, guardado na lata lata, si nádi gastá tudo tem qui botá outra vez básso de sol pa secâ más, assi nádi cria bolor.
       Choi kóng sã pa fervê caldo co carne porco, tem quim cozê co pulmão de porco, figo seco, nán hang pât hang, tem gente botá ló hóng kó, falá qui sã peitoral.
       Bom, falá cuza tamêm bom ia, iou sentí somente bom justo tomá, logo engolí tudo são assi tánto tempo bom ia.
       Sete cesto grándi de pack choi já virá choi kóng, ta guardá dentro de três lata de bolacha grándi, nádi ólã sã divéra nádi crê.
       Istunga três vedilhão cavá vendê tudo pack choi, contente qui non pódi más, abri unga pateca já comê na porta de casa, logo já dessá ficá casca de pateca na porta sa frente.
       China china ui de capaz trazê su mercadoria, tem gente trazê co carroça, tem gente cartá co tám cóm dôs cesto, tem gente cartá armário co tám cóm, otro cartá balde co tau fu fá quente qui quente, tau fu fá vem meio dia e seis hora de tarde.

       Unchinho más tarde, vêm vendilhão co galinha, quim querê galinha vivo tem vivo, quim querê galinha morto, china azinha matá, logo vem dôs hómi vendê fruta, siúm qui vêm cedo tudo gente chomá eli de “Ngai Châi Lou”, sã pichotito, otro vem unchinho más tarde gente já chomá de “Chal Pei”, istunga hómi tem ui de tánto ruga na cara.
        Vem tamên (chán tou mo kal chin) hómi de amolâ parão e tesoura, tamêm vem hómi de conserta tudo ancuza, istunga hómi tem onze dedo na mão, tudo gente chomá istunga sium de “Má Chi”, conserta tudo ancuza partido, tudo gente papiá que sã más bom qui outro téng tong kal lou qui vêm.
       Lôgo lôgo vem unga aporona ui de valente, trazê bredo, camalenga, cenoura, nabo e tánto ancuza más, istunga vêm dôs vez, trazê ancuza cartádo co tám cóm.
       Chega meio dia, vem um sium de carroça vendê achares china, tem sutate, têc iao, tau fu mui, chili missó, sün mui cheong, ngan nim cheong, sábi cuza más, tamêm vem dôs sium vendê tau fu fá.
       Ancuza vem de carróça sã toalha, pasta dentrifico, escova dente, roupa dentro pa nhónha e nhum, linha, agulha pa cirzí, botão, móla, creme, cera pa cabelo etc., hómi que trazê istunga ancuza pa vendê sã gordo, tudo gente chomá istunga sium de “Fei Lou”, têm gente vâi pa rua comprá, têm gente goelá na varanda ou janela.
       Gente qui comprá ancuza na varanda ou janela sã pincha cesto co córda pa trazê su ancuza vêm riva.
Chegá Inverno, já vêm vendê catupá, cana quente de noite, si querê comprá ancuza nádi têm qui vâi rua, sómente goelá, chomá china, china azinha vêm, pincha cesto co dinhéro já trazê vêm riva cuza querê.
       Lôgo contá más ancuza na edição de Magazine PCB qui lôgo vêm.

Texto e fotos de Filipe Rosário
Foto do pack choi copiado da página Rangeview Seeds

Dificuldades de comunicação

António há dois anos que não ia a Macau. Quando chegou ao prédio onde vivia uma prima, foi efusivamente cumprimentado pelo porteiro. Retribuindo a simpatia, António resolveu retorquir na língua do velho amigo que não via há dois anos, pondo em prática o que aprendera enquanto lá viveu.
- Ah! Nei hou, ngo mou kin nei leung ko nín! (tradução: Ah! Como está, eu não vi as suas duas mamas)!
Nin = ano
Nín = mama
O porteiro enrubesceu!

Rir é o melhor remédio

Iou otrora tem unga títi ui di amochai. Num tem gente qui vai visitá na su casa qui nádi come unga bolo de china de téclo. China de téclo com Calito sã dôs qui tudo dia corê rua vendê bolo ui di sabroso comê. Sã nosso Macau filo fazê-ça, capaz qui capaz.

Unga dia, iou com máiz dôs primo já vai visita títi na su casa. Títi raganhado contente qui num pódi máiz. Cavá falá pa nosotro china de téclo tem unga semana qui nunca vem. Ramendá, nosotro papiá tanto ancuza títi já isquecê, já vai buscá unga lata inchido de bolo, papiá pa nosotro:

- Comê, comê, ui di fresco.

Nosotro já rabiá, olá qui cuza sâm assim fresco. Vosotro querê sabê sã cuza?

Sã bolo de china de téclo qui unga semana nunca aparecê.


Júlia Gordo

Um passeio até Macau

        O frenesim pelas ruas de Macau, os táxis num vaivém, as lambretas atropelando-se umas às outras, provam bem a agitação diária destas Gentes numa ânsia de viver cada segundo das suas vidas. 

A gastronomia Macaense em paralelo com a Chinesa, revelam sabores e costumes bem diferentes dos Ocidentais. 

Os Hotéis Casinos anunciam bom gosto e percepção na captação e afluência de riqueza para o território Macaense. 

Os seus jardins, templos e museus lembram tempos áureos da permanência Portuguesa neste cantinho apetecível e convidativo. 

O senão foi as "gaiolas" que se avistam nas varandas e janelas dos edifícios, infelizmente pela falta de segurança que existe hoje em dia em qualquer parte do Mundo.

 António Maia